Pensar o Espaço Infantil Num Tempo Histórico Até ao Mundo Pós-Moderno

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Rimas de Berço, Paula Rego - Editores Relógio D'Água Nov. 2001Na Europa medieval até meados do século XII, não se pensava a criança. Esta, não tinha ainda um espaço definido na sociedade. Segundo Áries (1978) existia uma infância retratada como adultos em miniatura. Kramer (1995) afirma que a ideia de infância não existiu sempre de igual forma. Este conceito nasceu com as sociedades capitalistas, com a mudança do papel social e a integração da criança na sociedade, o que confirma os estudos do historiador francês, Philippe Áries, que assinalam o surgimento tardio do sentimento de infância, da tomada de consciência de que criança e adulto são diferentes. O conceito de infância é determinado historicamente a par e passo das modificações e transmutações das sociedades, ou seja, não é possível pensar a criança sem se pensar no contexto sócio-historico, em que se encontra inserida.

A escola é uma instituição que data do século XV (Áries, 1978), e com ela a importância da criança começou a mudar. Com a institucionalização do ensino – ainda que tivesse centrado na igreja e que servisse apenas uma pequena elite – desenvolve-se uma nova etapa na infância, as crianças deixaram de desempenhar o papel de bobo da corte, com o qual os adultos se divertiam e passaram a inspirar a responsabilidade da educação e moral. O sucesso da instituição possibilitou à criança um prolongamento de sua infância, pois até então, muito cedo eram passadas as responsabilidades de trabalho e a exigência de um desenvolvimento psíquico precoce, onde não existia um espaço para pensar a criança.

Hoje, observa-se uma migração do foco da família patriarcal para a criança. A família moderna ao contrário da medieval, molda as suas prioridades de acordo com as vontades e desejos da infância, quer por um enfraquecimento da sociedade patriarcal, quer pelo fortalecimento do papel da criança. Se no período medieval, a criança era um adulto em miniatura, tanto pelo figurino, quanto pela antecipação da maturidade, pois, não existia um espaço pensado e definido no seio da família, hoje, ao estabelecermos um olhar, encontramos uma criança que domina o seu espaço no núcleo familiar, mas que ainda assim, é forçada a se tornar adulta mais cedo, consequência não só desse espaço conquistado, mas também dos movimentos de um mundo pós-moderno.

Diferente da criança medieval, o mundo de hoje, produz crianças conscientes da sua função e papel e que muitas vezes se encontram sozinhas nas tomadas de decisões no seu dia-a-dia. Porém, da mesma forma que as crianças eram vestidas como adultas há séculos atrás, as crianças de hoje, tem cada vez mais informação, quando não existe ainda um espaço psicológico devidamente desenvolvido para receber a incursão de tanta informação. Este fenómeno indica, que de novo, o espaço para infância está a diminuir, enquanto a adolescência vem sendo alargada. O mundo infantil, cresce assim, de acordo com modelos sociais que se manifestam num consumismo exacerbado, produto do neoliberalismo e globalização, que retratam as sociedades ocidentais pós-modernas, mobilizadas pelas lógicas de mercado, de consumo e competição, na qual se inserem as politicas e sistemas educativos, e como reflexo, os contextos e praticas educativas actuais. Assim, as crianças das sociedades pós-modernas dão lugar a um ser humano mais complexo, não representando mais o símbolo da inocência e devir. Crescem no seio de transformações estruturais crescentes, desde a família à escola, o que convida, a que estas, sejam repensadas como instituições sociais em mudança. Rimas de Berço, Paula Rego - Editores Relógio D'Água Nov. 2001

Passámos a ter politicas educativas competitivas, que determinam a selectividade dos sistemas de ensino, onde os privilegiados escolares se encontraram sempre entre os privilegiados sociais (Correia, 1994). Um ensino essencialmente orientado pela opção lucro, resultante das políticas neoliberais. Como resultado do modelo de mercado, a situação educativa actual retrata fenómenos de exclusão social, um maior crescimento de desigualdades entre classes sociais e insucesso escolar, como consequência destes dois últimos factores. Níveis de literacia e de escolarização baixos e problemas graves do ponto de vista da indisciplina apontam, para quadros psicopatologicos mais graves. Com a massificação da educação, a população tornou-se cada vez mais heterogénea, não tendo a escola, no presente, capacidade de resposta face às necessidades educativas e psicológicas individuais dos alunos. A organização pedagógica actual, a construção dos conteúdos, surge no século XVI com os colégios – os jesuítas. Quem tinha acesso aos mesmos eram os nobres, as elites, sendo a escola, criada para nichos populacionais homogéneos, selectiva desde sempre.

Segundo Zimerman (2000), as profundas transformações das sociedades pós-modernas nas últimas décadas, nas ciências, religião, filosofia, arte, ética, sexualidade, cultura, política e condições socio-económicas, isto é, as transformações bio-psico-sócio-economico-culturais fazem com que nós, educadores e técnicos de saúde mental, estabeleçamos um outro olhar e antes de mais, um olhar reflexivo, quanto ao desenvolvimento psicológico da criança e do homem. A evolução e transmutação das sociedades, têm como consequência, o desenvolvimento de tipos de funcionamento e estruturas psíquicas diferentes de há 100 anos atrás, quando Freud pensou a psicanálise. Para Zimerman (2000), a essência do pós-moderno constitui-se na progressiva introdução da imagem, da percepção visual, ocupando o lugar do pensamento e palavra. Assim, segundo o autor, o pensamento dá lugar a uma cultura do narcisismo, onde habita um conflito entre o “Ego ideal” versus o “Ego real”, ou seja, o homem passa a valer pelo que tem ou aparenta ser. A capacidade para pensar, aprender, tolerar e o amor pela verdade dão lugar à omnipotência, omnisciência, arrogância e à confusão entre o que é verdadeiro e falso. Como consequência, pensa-se, que o homem de hoje se caracteriza grandemente por uma luta pela sobrevivência psíquica, traduzindo-se, pelo número crescente de pessoas que encontramos na nossa clínica com carências emocionais, faltas e buracos negros interiores, constituindo-se as patologias do vazio que se manifestam por meio de sintomatologia psicótica, psicopatias, perversões, toxicomania, transtornos de carácter e condutas de comportamentos desviantes numa procura desmedida de reconhecimento, de encontrar um espaço, um lugar dentro do outro.

Pensa – se, numa falha ao nível da continência, acompanhada de uma emancipação precoce do mundo, onde a competitividade é cada vez mais desmedida, e que tem como consequência, um profundo estado de desamparo, sendo este, um dos factores que potencia o aumento do nível de violência urbana, uma procura de identidade, uma procura de lugar, numa sociedade que faz sentir, que não existe espaço para os demais. É de sublinhar que as transformações da cultura e sociedade integram novas características sobre as diferentes configurações psicopatológicas dos indivíduos e grupo. Hoje, fruto das mudanças sociais, encontramos muito mais do que pacientes apenas portadores de conflitos centrados na luta entre as pulsões proibidas e os mecanismos de defesa, pelo contrário, observa-se um número crescente de patologias depressivas, narcisistas, de falso self, estruturas psicossomáticas e transtornos alimentares, sendo que, “as patologias do vazio” afiguram uma falha precoce ao nível da capacidade de contenção materna que formam os chamados “buracos negros” no psiquismo da criança (Zirmerman, 2000).

Rimas de Berço, Paula Rego - Editores Relógio D'Água Nov. 2001
A meta final do desenvolvimento psicológico do homem é a aquisição da identidade. Após todas as etapas do desenvolvimento psicológico, a criança adquire condições de maturação e desenvolvimento, no sentido de uma progressiva diferenciação, até atingir as condições de constância objectal e coesão do self, possibilitando as mesmas, o desenvolvimento da sua identidade, autonomia, autenticidade e singularidade. Como tal, é necessário que o adulto desenvolva um procedimento com a criança, ético, que se traduz pelo direito por parte do bebé em ser desejado por ambos os pais, direito a ter uma mãe disponível e um pai presente e direito a um espaço físico e psíquico, no qual exista o respeito pelas necessidades e vivências emocionais e psicológicas da criança. Ao invés, as figuras parentais, na sua pluralidade, passaram a actuar como agentes patológicos da criança.

É necessário, que a escola e família sejam uma, um espaço formativo, de sociabilidade, participação, cooperação e criatividade, no qual a criança aprende pelo prazer de aprender, aprende através da relação vincular, que toda a aprendizagem se realize através da experiência emocional e curiosidade pelo mundo circundante.

Alexandra Sofia Santos Silva
Faculdade de Medicina de Lisboa
santossilva.alexandra@gmail.com

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Bibliografia

Ariés, P.(1978). A historia social da criança e família. Rio de Janeiro: Guanabara.
Correia, J. A. (1994). A educação em Portugal no limiar do sec. XXI: Perspectivas de desenvolvimento futuro, in Educação Sociedade & Culturas, nº. 2, 7-30.
Ferreira, T. (2002). Em defesa da criança – teoria e prática psicanalítica da infância. Lisboa: Assírio & Alvim.
Freud, A. (1989). Textos Essenciais da Psicanálise – II A teoria da sexualidade. Lisboa. Publicações Europa – América.
Zimerman, D. (2000). Fundamentos básicos das grupoterapias. Porto Alegre: Artmed Editora S.A.
Zimerman, D. (2004). Bion da teoria à prática. Portalegre: Artmed Editora S.

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